Uma oportunidade, muitos caminhos: Jhennifer relembra sua trajetória profissional

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A lembrança exata do momento em que soube que havia conquistado a vaga de aprendiz da Assprom continua viva na memória de Jhennifer Kerollyn Alves Vieira. Aos 16 anos, no setor administrativo da Prodemge, ela aprendeu sobre responsabilidades, encontrou amigas para a vida inteira e sentiu o orgulho de retribuir o carinho da família dividindo seu primeiro salário com a mãe.

Aquela primeira experiência abriu horizontes. Anos mais tarde, alimentada pelo sonho de dar voz a histórias, ela superou a rotina dupla de trabalho e faculdade para se tornar jornalista na Globo Minas.

Nesta entrevista do Histórias de Vida, Jhennifer olha para trás com gratidão e reflete sobre os passos que a trouxeram até aqui — provando que uma oportunidade bem aproveitada pode transformar vidas.

Jornal da Assprom: Como você conheceu a Assprom?

 Jhennifer: Eu conheci a Assprom por meio da minha mãe. Ela já conhecia o programa, provavelmente por indicação de vizinhas, e sabia que o Jovem Aprendiz da Assprom era uma oportunidade muito boa para quem estava começando. Assim que completei 15 anos, nós fizemos minha inscrição. Depois de um período esperando ser chamada, comecei os cursos preparatórios e, posteriormente, fui encaminhada para trabalhar na Prodemge, na Cidade Administrativa.

 

Jornal da Assprom: O que foi mais chocante para você no primeiro contato com o ambiente profissional?

 Jhennifer:  Acho que foi perceber que eu estava saindo do único ambiente que conhecia, que era a escola, para um lugar cheio de adultos, responsabilidades e situações completamente novas para mim. Eu tinha 15 anos e pensava: “Meu Deus, eu preciso cumprir minhas responsabilidades, preciso aprender, preciso dar conta disso”.

E acho que esse senso de responsabilidade que a gente desenvolve tão cedo faz diferença não só na vida profissional, mas também nos estudos e em tudo que vem depois.

Outra coisa que me marcou foi perceber onde o trabalho e o estudo podem levar uma pessoa. Eu venho de uma família de origem muito simples e, naquele momento, comecei a enxergar pessoas que tinham estudado, se dedicado e conseguido construir uma vida profissional diferente. Isso me mostrou que existiam outras possibilidades para mim também. Acho que essa percepção foi uma das coisas que mais me motivaram a continuar estudando e a entrar na faculdade.

 

Jornal da Assprom: Você se lembra de alguma situação vivida na Prodemge que tenha ficado especialmente marcada na sua memória?

 Jhennifer:  Não consigo lembrar de uma situação específica que tenha marcado mais do que as outras. O que eu lembro muito é da rotina de trabalho. Eu era auxiliar administrativa da secretaria do presidente e fazia, entre outras coisas, a organização de arquivos. Havia uns gavetões enormes onde ficavam documentos, e eu passava bastante tempo organizando aquilo. É uma lembrança simples, mas representa muito daquele primeiro contato que tive com o ambiente profissional.

Também guardo com carinho o fato de algumas amigas da Assprom terem sido encaminhadas para trabalhar lá. Então, além de ser meu primeiro emprego, era um ambiente em que eu também tinha pessoas da minha idade com quem eu já tinha criado vínculos.

 

Jornal da Assprom: Houve alguma pessoa que marcou sua trajetória durante o período na Assprom ou na Prodemge? Por quê?

 Jhennifer:  Acho que as minhas amigas da Assprom foram algumas das pessoas que mais marcaram esse período. Nós nos conhecemos em 2017 e continuamos amigas até hoje. A gente passou por várias fases juntas, desde a época do programa até a formatura, e ainda mantém contato.

Recentemente, inclusive, estivemos juntas no chá de fraldas de uma delas. É muito especial perceber que pessoas que entraram na minha vida por causa do primeiro emprego continuam fazendo parte dela tantos anos depois.

Mas, de uma maneira geral, acho que todas as pessoas com quem convivi naquele período contribuíram para a minha formação de alguma forma.

 

Jornal da Assprom: Naquela época, teve alguma “bronca” ou conselho que tenha escutado que mudou a sua forma de enxergar as coisas?

 Jhennifer: Não lembro de uma bronca específica, mas lembro de muitos conselhos. Uma das principais lições era entender que a gente estava tendo uma oportunidade muito importante e precisava saber aproveitá-la.

Aprendi também que toda responsabilidade tem consequências. Se você recebe uma tarefa e não cumpre, aquilo pode gerar um problema para outra pessoa. Ao mesmo tempo, aprendi que errar faz parte. O importante é assumir o erro, entender o que aconteceu, aprender com ele e trabalhar para não repetir.

Durante o período na Assprom, eu também fazia cursos uma vez por semana, e eles ajudavam justamente a entender melhor o mercado de trabalho, as responsabilidades e o que significava ser um bom profissional.

 

Jornal da Assprom: Você se lembra da primeira coisa que comprou com o seu primeiro salário? O que ter seu próprio dinheiro mudou na sua relação com a vida naquela época?

Jhennifer: Eu não lembro de uma primeira compra específica porque, na verdade, meu salário tinha outro destino. Eu comecei a trabalhar principalmente para ajudar em casa, então boa parte do que eu recebia ia diretamente para a minha mãe.

Minha mãe nunca deixou faltar nada para mim, então poder, todos os meses, pegar o meu salário e ajudar em alguma compra ou em alguma despesa da casa era muito importante. Se eu precisava de alguma coisa, ela também comprava para mim. Então meu primeiro salário não representava apenas ter dinheiro próprio. Para mim, representava poder contribuir com a minha família.

E isso sempre foi muito especial e importante pra mim.

 

Jornal da Assprom: Qual a primeira coisa que você lembra hoje em dia quando pensa na Assprom?

 Jhennifer: Sendo sincera, a primeira coisa que eu penso é na satisfação de quando recebi a ligação falando que consegui o emprego. É uma lembrança muito simples, mas é o que vem imediatamente à cabeça pois foi um momento muito aguardado. Lembro de onde estava e o que estava fazendo até hoje!

Mas, pensando na minha trajetória, eu vejo a Assprom como uma grande porta de entrada para muitas coisas que vieram depois. Meu primeiro emprego com carteira assinada, em 2021, aconteceu depois da pandemia, em um momento muito difícil, e eu não tinha outra experiência profissional além do Jovem Aprendiz.

Naquele processo seletivo, coloquei no currículo tudo o que tinha aprendido na Assprom: Excel, Word, as atividades administrativas e toda a experiência que tinha adquirido. Aquela bagagem me ajudou a conseguir uma nova oportunidade.

Depois, enquanto estava nesse emprego, consegui entrar na faculdade. Na faculdade, fui para estágios na minha área e, hoje, trabalho como jornalista. Então, quando olho para trás, percebo que uma coisa foi levando à outra.

 

Jornal da Assprom: Quando o jornalismo entrou na sua vida, e o que despertou seu interesse pela profissão?

 Jhennifer: O jornalismo, na verdade, sempre foi uma certeza para mim. Eu não me lembro de ter considerado muitos outros cursos. Sempre gostei de acompanhar notícias, de ouvir pessoas e de conhecer histórias.

A Glória Maria também foi e continua sendo uma das grandes referências para mim. Além da profissional que ela foi, existe a importância de olhar para uma jornalista negra que ocupou tantos espaços e abriu caminhos.

Em 2019, quando eu tinha 17 anos, escolhi jornalismo para colocar na minha camiseta de formatura. Naquele momento, eu pensei: “Não tem outra opção”. Quando tive a oportunidade de entrar na faculdade, em 2022, eu já sabia que era aquilo que queria.

E não me arrependo. O jornalismo me permite conhecer muitas pessoas, histórias e realidades diferentes e transformar essas informações em algo que pode chegar a outras pessoas e, de alguma forma, impactá-las.

 

Jornal da Assprom: Quais foram os principais desafios que você encontrou até conseguir atuar como jornalista?

Jhennifer: Um dos maiores desafios foi conciliar trabalho e faculdade. Quando comecei a graduação, eu trabalhava oito horas por dia em uma empresa de biotecnologia e depois precisava correr para a faculdade. Eu não morava perto, então tinha um deslocamento grande. Chegava em casa perto da meia-noite e, poucas horas depois, já precisava acordar novamente para pegar dois ônibus e voltar ao trabalho.

Em determinado momento, precisei deixar esse emprego para conseguir buscar oportunidades na minha área. E os estágios também foram momentos de muito aprendizado e incerteza. A gente nem sempre sabe se está no caminho certo ou se aquela é realmente a área em que quer continuar.

Acho que uma coisa importante foi aprender a confiar no que eu queria, mas também entender que a gente pode errar. Você pode experimentar uma área, perceber que não é aquilo e procurar outro caminho. O importante é continuar enxergando possibilidades para o futuro.

 

Jornal da Assprom: O que mais mudou em você como profissional da época da Assprom para agora?

Jhennifer: Ao mesmo tempo em que muita coisa mudou, algumas coisas permaneceram. Na Assprom, eu estava aprendendo o que era ser profissional, como ter responsabilidade, cumprir uma tarefa e entregar um trabalho bem-feito. Hoje, continuo aprendendo, só que em outro momento da minha carreira e com outras responsabilidades.

Acho que a principal diferença é a experiência e a segurança que vieram com o tempo. Mas aquela menina de 15 anos que estava começando ainda faz parte da profissional que eu sou hoje.

 

Jornal da Assprom: Se a Jhennifer de 15 anos pudesse entrevistar você hoje, o que acha que ela perguntaria?

Jhennifer: Eu acho que ela perguntaria: “A gente conseguiu?”.

E eu responderia que sim, mas que a resposta não é tão simples assim.

Acho que ela ficaria feliz de saber que aquela menina que começou como Jovem Aprendiz conseguiu entrar na faculdade, se formar e trabalhar na área que sempre quis, como jornalista na Globo Minas. Mas também diria para ela que o caminho não seria exatamente como ela imaginava. Teria momentos difíceis, mudanças, dúvidas e escolhas que precisariam ser feitas.

Mas, no fim, cada etapa teria um papel importante para chegar até aqui.

 

Jornal da Assprom: O que você gostaria que um aprendiz ou adolescente trabalhador entendesse sobre o primeiro emprego que você só descobriu depois?

Jhennifer: Eu diria para aproveitar muito essa oportunidade. O primeiro emprego não precisa definir o que você vai fazer pelo resto da vida, mas ele pode ensinar coisas que vão acompanhar você por muitos anos.

Às vezes, você acha que está aprendendo apenas a fazer uma tarefa ou a usar um programa de computador, mas está aprendendo também a ter responsabilidade, cumprir horários, lidar com pessoas, receber críticas, reconhecer erros e trabalhar em equipe.

Eu mesma só percebi depois o quanto aquela experiência continuaria sendo útil. Os cursos que fiz, a experiência administrativa e tudo o que aprendi naquela época apareceram novamente quando precisei procurar outro emprego.

Então acho que a principal mensagem é: não subestime o começo. Mesmo que você ainda não saiba onde quer chegar, tudo que você aprende pode fazer parte do caminho.

 

Jornal da Assprom: Para encerrar, conectando todas essas histórias da sua vida no trabalho… Se a sua trajetória profissional fosse uma matéria de jornal, qual título você daria a ela?

 Jhennifer: “Uma oportunidade, muitos caminhos.”

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